A tarde vai caindo
junto com a chuva. Cada gota chega ao solo com força, e com igual força o céu torna-se
negro. Ela se senta em sua varanda e sente o cheiro que paira no ar. Os carros
passam velozes; os poucos pedestres que sobraram correm em busca de abrigo para
seus corpos; os cachorros acompanham os humanos, mas estes se divertem mais com
a água que cai. Os pássaros, lentamente, param de cantar. A chuva parece
aumentar, assim como o vazio que invade não só a cidade, mas também seu
coração. Levanta-se, ignorando o celular que toca incansavelmente, e vai encher
seu copo. Enquanto a bebida entra, prepara sua mente para a noite que vai
chegar, na qual será forçada a despedir-se de quem se ama. Despedidas nunca são
fáceis, por mais comuns que sejam. Comuns porque sempre temos que fazê-las e,
ainda assim, nunca aprendemos bem como. É aquela vontade de querer aproveitar
cada minuto e sair da despedida sem o gosto de ‘quero mais’, mas nós, meros
mortais, raramente somos capazes disso: não sabemos aproveitar minutos com
total exclusividade, pois sempre colocamos sentimentos pessimistas em torno de
tudo. É incomum saber de momentos em que pessoas realmente souberam disfrutar,
e as despedidas são sempre assim – não sabemos o que fazer. É aquele velho
desejo de querer abraçar a pessoa – ou até mesmo o lugar – e guardá-la intacta
em um pote. Não queremos saber de mudanças, não queremos términos: fugimos disso
e esquecemos que, para que algo novo comece, o velho precisa estar acabado, e
isso tudo são modificações que nos marcam – e nem sempre para o bem. Porém, é
preciso ter consciência de que tudo nessa vida é efêmero, e o que hoje está
vazio, amanhã já estará cheio. Seja seu coração, seja sua mente, seja seu
ânimo. Sabendo disso, terminou o que estava em seu copo. A chuva cessou. As
nuvens espaireceram-se e estrelas começaram a iluminar a noite. Pássaros
voltaram a cantar, assim com a certeza de que tudo é nosso, volta - ou nem
sequer se vai.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Vida
A vida é uma só, e mesmo assim há gente que não sabe viver. Eu, muitas vezes, não sei viver. Viver é, sem dúvida, uma arte que muitos não sabem apreciar. Quantas vezes deixamos de viver momentos memoráveis por causa do medo? E a vida não é pra quem tem medo: a vida nos exige coragem, exige intensidade e entrega, e se você não está disposto a sofrer as consequências de se viver, o azar é todo teu. Tudo é passageiro, tudo é efêmero; um dia chegamos, outro partimos. Cabe a cada um saber o que fazer nesse intervalo e como lidar com as desavenças que aparecem no meio do caminho. Meu apelo é pra todos: não tenham medo da vida, aproveitem e agarrem com todas as forças: uma hora isso tudo vai passar, e no seu leito de morte você pode se arrepender por não ter vivido com intensidade ou não ter feito o que realmente queria. Disfrute dos momentos, disfrute das surpresas que a vida nos presenteia cotidianamente: vá até o fim.
terça-feira, 26 de maio de 2015
Ela se foi
Hoje faz duas semanas que ela se
foi. Ainda sinto engasgado o choro que tive que engolir – e ainda engulo. Hoje
faz duas semanas que não vejo o movimento calmo e suave dos seus cílios,
contrastando com seus olhos castanhos e logo insinuando um sorriso malicioso.
Mirar seus lábios me enchia de água na boca, mirar seus olhos me excitava.
Enquanto percorria seu corpo suavemente com a ponta dos dedos, podia sentir
seus pelos ouriçados, e essa reação me fazia bem. Mas ela se foi. Levo quinze
dias revivendo memórias, levo quinze dias no passado, estagnado. Foi-se, já
era. Não voltarei a ver seu corpo dançando livremente enquanto preparava o café
da manhã e nem seu cabelo despenteado de tanto nos revirarmos na cama. O lençol
já não carrega seu perfume, e o cobertor – que já foi telespectador de momentos
fervorosos – já não é objeto de disputa entre dois corpos estirados na cama. A
gaveta do aparador já não esconde seus pijamas e sua escova de dente não
repousa junto à minha. Ao lado da cama agora só o retrato. Sim, ela se foi.
Suas mãos não mais tocarão as minhas. Seu olhar não mais se cruzará com o meu,
e sua boca não sentirá o calor da minha. Não mais. Lá fora o sol brilha, mas me
falta o ânimo da admiração. Minhas mãos inutilmente buscam as suas enquanto repouso
a cabeça sobre o travesseiro. Fecho os olhos. Viro meio copo de whisky. Jogo os
braços para o lado oposto da cama e automaticamente procuro seu corpo: ele não
está. Um ciclo vicioso que não acaba nunca, uma corrosão interior que mata
lentamente. Tudo porque você se foi – e infelizmente não voltará.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Colocou o cabelo para trás da orelha e enxugou as lágrimas. Acendeu um cigarro e aumentou um pouco mais o volume da música. Olhou, desolada, para a janela. Em um mundo tão extraordinário, qual é a razão para conhecermos pessoas tão inspiradoras e logo depois sermos forçados a dizer adeus? Somos obrigados a abandonar quem queríamos cultivar. Somos obrigados a ir embora - não há nada sem separação - já dizia o poeta. Chegadas, partidas. Mais um trago, por favor. Em um mundo feito de despedidas, feliz é quem sabe seguir adiante naturalmente. Mas ela não sabia: sempre colocou sentimento demais, emoção demais, vida demais. Ta aí: acho que viver demais ás vezes gera uma confusão nisso tudo. Se entregar tem seu preço, abrir os braços aos momentos tem seu preço. Não é barato, e sua cotação continua a subir... E subindo vai até que o tempo passe. O tempo é rei, né? Daqui um ou dois meses olhará pra trás e não haverá sofrimentos. Olhará pra trás e fingirá que nada aconteceu, que foi tudo (outra vez) ilusão. E assim seguirá. Quebrará a cara outra vez, sofrerá, passará. Cair, levantar, seguir. Cair, levantar, seguir. Lei da vida. Lei de ação e reação. Tudo que sobe, desce. Vivemos demais, sentimos demais? Uma hora sentiremos de menos. Estamos rindo? Uma hora choraremos. E ao contrário. Nada é, tudo está. Isso não é de todo ruim. Para valorizar o sorriso, precisa-se das lágrimas. Para valorizar a saúde, precisa-se da doença. O mal faz parte da vida - e compõe um pedaço importante desta. Mais um trago, por favor. Um dia se ama, um dia se é amado. Será possível esses dois marcos em uma mesma história? Ela o amando, e ele amando-a? Outro trago. Pulmões negros e pensamentos ainda pior. Coração, nem se fala. Cair, levantar, seguir. Qual o problema, então, se isso um dia será apenas cinzas? É que ela sempre ansiou por mais. Ou estava sendo - mais uma vez - ingênua ou a vida estava de caô. Enquanto puxa outro trago, tenta se responder "por que estou sofrendo se sei que é efêmero?" E na ausência de respostas, a nicotina entra para preencher o vazio...
Hoje morreu um cara em frente ao meu prédio. Eu estava voltando de uma classe quando percebi certo reboliço em frente a porta de entrada. Vi uma mulher chorando desconsoladamente e fiquei intacta na hora. Gente sem ar me deixa sem ar. Mulherzinha que sou, algumas lágrimas também desceram por meu rosto ao ver o sofrimento daquela criatura. Entrei no meu apartamento e fui ver tudo aquilo lá de cima. Vizinhos curiosos, olhares assustados dos transeuntes e eu só conseguia interceder por aquela alma que padecia, em prantos. A vida mexe comigo, e consequente a isso, a morte me atinge lá nas entranhas, todavia. Com esse cenário diante dos meus olhos comecei a questionar - coisa clichê - nossa passagem por esse planeta. Nascemos, nos reproduzimos, morremos. Que grande coisa, não? Sim, é uma grande coisa. Apenas esqueceram de acrescentar que no meio dessas etapas passamos por muitas situações até que estejamos aptos para passar de fase. Demoramos nove meses para nascer. Até sermos capazes de reproduzir mais longos anos enfrentamos. E a morte, bem, a morte é um grande ponto de interrogação. Sócrates achava incomum o temor por detrás da morte, visto que ninguém sabe dizer se está é boa ou ruim. E de fato, a pena recai sobre quem fica, e não pra quem vai (eu acho). E toda aquela cena passou como um filme em minha cabeça. Enquanto eu observava a polícia, o choro e o desespero, me dei conta de que me importo com coisas muito banais: fulano não me ligou, minha companheira de piso é uma babaca, estou com uns quilos a mais... Porra! Isso não é sofrimento, é desilusão. A vida é uma ilusão, os acontecimentos são uma ilusão, e ademais, nosso sofrer muitas vezes é composto de ilusão. Mas a morte não. Quiçá a morte seja mesmo a resposta pra tudo nessa vida. A morte vem como um tapa na cara, como uma bala perdida e nos dá um beliscão, como se dissesse "desperta, vai viver". Contraditório, eu sei. Assim como tudo nessa vida. Mas são as contradições que respondem às tantas aporias que a vida lança.
quinta-feira, 12 de março de 2015
E se...
A vida é um eterno "e se...". Viver é um ato de coragem que instiga nossos desafios e tomadas de decisões, mas eu não conheço um ser humano que lança o ato e logo em seguida não se reclina para dentro de si e se pergunte: fiz eu a coisa certa? E se tivesse tomado outro caminho? E se tivesse dito não?
O fato é que nós jamais poderemos sequer cogitar o caminho oposto ao da nossa escolha. Nunca, jamais. A cadeia de acontecimentos que gera a vida é densa demais e está fora do nosso poder de compreensão. Bem, pelo menos da minha compreensão. Onde estaria eu agora se tivesse dito não? Quais seriam os pensamentos que estariam sendo abrigados em minha mente e quais sentimentos estariam em minha composição? Mistério. Se eu tivesse me atrasado cinco minutos para meu compromisso de hoje o que seria diferente? Se eu soubesse dizer as palavras certas nas horas certas eu almejaria coisas melhores? Só que, se eu tivesse dito tal coisa, talvez outra cadeia se sucedesse e nada estaria do jeito que está. Passar pela vida é fácil, viver é uma obra mais detalhada que requer certos cuidados. Certa vez, em um filme que vi, a personagem estava demasiada preocupada com seu passado a ponto de deixá-lo tomar conta de seus pensamentos, até que chegou um cara e disse que ela precisava escolher seus pensamentos do mesmo modo que escolhia suas roupas: não é qualquer coisa que pode servir de vestimenta em sua mente. Pense nisso. Sempre que esses fricotes insistem em me dominar penso em quão certeira a vida é. Tudo que tenho é aquilo que preciso: nem mais, nem menos. Observe que isso não significa falta de ambição, pois com certeza tenho também os desejos e impulsos que me cabem agora, assim como meus anseios, e isso me motiva a buscar mais - afinal, só o que está morto não muda.
Acredito tanto na vida que me apaixono por ela a cada dia. Viver dói, viver caleja, viver muitas vezes se consiste em se arrastar, mas viver é lindo. Você está onde deveria estar, as pessoas que estão contigo aí deveriam estar (valorize-as) e você vai chegar onde deve chegar na hora certa. Acalma esse coração e respira. Acredite na vida, ela não erra...
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
O que tira sua paz, você quem decide. O que te faz sofrer, você quem decide. Quem vai parar sua vida e vira-lá de cabeça pra baixo também é decisão sua.
Muitas pessoas, de tão vazias, querem tirar tudo o que as outras possuem, pois não agüentam ver alguém mais cheio, mais preenchido do que ela. Por isso, antes de declarar guerra, pense se isso realmente vale o seu tempo e a sua energia.
Se você tem medo de desagradar as pessoas, pare. Se todos te amam, se você não incomoda ninguém, algo está muito errado com você. Saiba disso e tenha isso como definitivo em sua vida: não queira e nem agrade a todos. Contrarie. Provoque. Mostre-se. Não por arrogância, mas por coragem. Muitas vezes nos escondemos em nós mesmos e fazemos coisas que não queremos apenas para satisfazer alguém. Sim, somos humanos, queremos aceitação. Mas entenda que você só vai estar rodeado por pessoas honestas se você se permitir ser honesto, e isso inclui seus defeitos e imperfeições.
Chatos todos somos; loucos, mais ainda. Não tenha vergonha e nem medo de incomodar alguém. Seus defeitos acabam tornando-se filtros de seleção para quem é digno de você e quem simplesmente deve ser descartado de sua vida. Saiba escolher.
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